A Venezuela e a autonomia geopolítica
sul-americana
A
Unasul já demonstrou capacidade de lidar com crises regionais sem a necessidade de intervenção dos Estados Unidos
Em artigo recente publicado na Folha de S. Paulo, Mathias Spektor mencionou que a questão da
Rússia e da Ucrânia seria uma
oportunidade para o Brasil exercitar sua aspiração de uma ordem internacional
de caráter “multipolar benigna”.
Ou seja, representaria um momento para auxiliar na
realização de seu desejo de diversos pólos de poder mundial que estabilizariam
o sistema pela existência de organizações internacionais. O articulista argumentou que há oportunidade para a política externa brasileira definir e auxiliar na construção do tipo de centro de poder desejado, dado o novo
status do país no mundo.
De
acordo com essa perspectiva, diria que emergem também
novos desafios no prisma regional que precisam ser observados com cuidado. Analisar a geopolítica das organizações regionais e a interação entre os centros de poder
nas Américas incita questionamentos igualmente relevantes sobre a evolução da proposta brasileira
de regionalismo para as Américas e sua articulação com aquela dos Estados Unidos. Como colocou recentemente José Luís Fiori em
duas análises no jornal Valor Econômico, as posições estadunidenses seriam o maior desafio para as ambições da política
externa do Brasil no século XXI.
Não se trataria, necessariamente, de uma perspectiva de confrontação militar, haja vista que as capacidades dos Estados Unidos são muito superiores
às brasileiras. Há desafios de articulação política pelas diferentes visões dos dois países acerca da
gestão das questões regionais. Desde o fim da Guerra Fria, observa-se a consolidação
de dois projetos complementares, mas que pesam diferentemente
na balança dos objetivos políticos dos dois países.
De
um lado, os Estados Unidos buscaram consolidar as relações hemisféricas por meio de uma
agenda política, militar e econômica. As agendas da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Cúpulas das Américas, da proposta,
da Área de Livre-Comércio entre as Américas (Alca) e das Reuniões de Ministros da Defesa das Américas
são exemplos que ilustravam a busca estadunidense de estabelecer bases hemisféricas para as organizações internacionais, participando ativamente dessas decisões. Nos anos
1990, em especial, com o fim
da Guerra Fria, e o decréscimo
da centralidade da agenda de segurança, a via hemisférica tinha bastante força pela proposta da
Alca.
De
outro lado, a visão brasileira de integração regional tem outras características. Ao longo dos anos, a diplomacia do Brasil jamais deixou de participar dessas organizações. Mesmo ao discordar de determinadas agendas, como a da Alca, por
exemplo, a orientação da política externa
brasileira foi de não se ausentar da mesa de negociações. Porém, desde o fim dos anos 1990, o Brasil tem optado por munir a América
Latina de recursos próprios
para lidar com suas crises, sem a necessidade de intervenção política dos Estados Unidos. O país promoveu a primeira Cúpula de Presidentes Sul-Americanos, em 2000, trabalhou pela construção da Casa, em 2004, por sua
consolidação como Unasul, em 2008, e pela Celac (Comunidade
de Estados Latino-Americanos
e Caribenhos), em 2010.
Se
há uma articulação
de organizações complementares,
há também projetos de integração divergentes. Ao passo que o Brasil
influencia a criação de instituições para garantir autonomia de decisão aos países
da região, pode, como apontou
Fiori, gerar tensões com os Estados Unidos no longo prazo. Por
isso, está-se observando um novo tipo de geopolítica na região, a da ocupação
dos espaços institucionais
e decisórios.
A
Unasul já demonstrou capacidade de lidar com crises regionais sem a necessidade de intervenção dos Estados Unidos, como no caso da instalação
das sete bases estadunidenses
na Colômbia e do massacre
de Pando na Bolívia. Porém, a atual crise na Venezuela representa um desafio novo, que adianta essas
tensões de longo prazo, haja vista que os Estados
Unidos participaram ativamente das reuniões da OEA sobre
o caso, rejeitaram publicamente a abordagem sul-americana para tratar a questão e ameaçaram adotar sanções contra o governo de Nicolás Maduro. A Venezuela rejeitou a atuação da OEA e apenas
aceita mediação da Unasul.
Por isso, o Brasil tem diante de si o grande desafio
de mostrar o papel da instituição que criou e sua
capacidade de gestão de
crises. Para isso, porém, precisa atuar mais
ativamente na mediação e na sustentação
da Unasul, com mais ênfase do que tem feito o atual governo. A política externa brasileira tem diante de si um quadro complexo
que pode ser o prenúncio das próximas décadas do século XXI. Agora, a capacidade de organizações regionais que não
incluem os Estados Unidos, como a Unasul e a Celac, de resolver crises sem discordância com a grande potência, dependerá de como as cartas serão jogadas na
mesa dessa nova geopolítica
das organizações.
*Raphael
Camargo Lima é mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago
Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP). Membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional e do Observatório
de Política Externa do Brasil.