Recuperar o tempo perdido

 

EDITORIAL

 

August 4, 2010

 

O presidente Barack Obama resumiu numa frase — “hoje encerramos um capítulo” — o fim das operações de combate das tropas americanas no Iraque até o próximo dia 31, ressaltando o cumprimento de uma de suas promessas de campanha. Sintomaticamente, ele passou ao largo de declarações triunfalistas como a tristemente célebremissão cumprida”, dita por George W. Bush um mês e meio depois de iniciada a campanha, sete anos e cinco meses.

 

Mais significativa foi outra frase de Obama, depois de recordar a necessidade de manter aberta outra frente de combate — no Afeganistão —, naquele que é o conflito mais longo da história dos EUA: “Não podemos esquecer que foi no Afeganistão onde a al-Qaeda planejou e treinou para o assassinato de 3 mil pessoas inocentes em 11 de Setembro de 2001. É do Afeganistão e das zonas tribais do Paquistão que os terroristas lançaram outros ataques contra nós e nossos aliados”, disse o presidente.

 

Implicitamente, Obama apontou o tremendo erro de avaliação da administração George W.

Bush, que minimizou a importância da aliança al-Qaeda/Talibã no Afeganistão e nas zonas tribais do Paquistão para ir atrás de Saddam Hussein sob os argumentos — ambos furados, confirmouse depoisque o ditador tinha armas de destruição em massa e era aliado da al-Qaeda.

 

Os resultados da longa ocupação do Iraque são controveros. A afirmação de Obama que a violência no país está num mínimo histórico recebeu a contestação do próprio governo iraquiano, ao informar que julho foi o mês mais terrível dos últimos dois anos, com 535 mortos, 396 deles civis (o número de baixas americanas diminuiu muito com a “iraquização” da guerra). A instituição independente Iraq Body Count situa o número de vítimas civis do conflito entre 97 mil e 106 mil em sete anos.

 

A ordem de encerrar definitivamente a participação americana em operações militares chega num momento em que o Iraque vive grande incerteza política e institucional. Como resultado das renhidas eleições parlamentares de março, ainda não houve acordo sobre a formação do novo governo.

 

A saída dos EUA significa que os iraquianos agora terão de tocar seu país, e eles ainda carecem de um acordo político nacional entre suas diversas comunidades étnicas e religiosas para poderem se entender. Aliás, carecem de muita coisa, como eletricidade em tempo integral. A reconstrução do Iraque foi um dos maiores fracassos da ocupação americana. Os bilhões de dólares gastos em obras de toda a espécie não se refletem num dia a dia melhor para a população, levando a opiniões radicais, como a de Farhan, ouvido pelo "New York Times" em sua loja às escuras em Bagdá: "A democracia não nos trouxe nada. Aliás, trouxe uma lata de Coca-Cola e outra de cerveja."

 

Não solução mágica, como implantar o modelo de democracia clássica ocidental e esperar que funcione. É preciso adaptar os modelos políticos à realidade local e tentar, a todo o custo, que as próprias forças dinâmicas do país determinem o seu futuro.