Obama ainda
precisa mostrar quem é
Postado por William Waack
em 12 de Maio de 2008 às 20:08
Mauren Dowd, talvez a mais ferina língua
do colunismo político americano, inventou um jeito de Barack Obama punir
Hillary Clinton por tudo o que ela disse
dele na briga
interna dos democratas. É só nomeá-la
vice-presidente, sugeriu
Dowd, no “New York Times”.
Do jeito
que ela é, continua a colunista, Hillary teria convulsões estomacais todo dia que
acordasse pensando que é Obama, e não ela, o chefe
de Estado americano. E se consolaria lembrando
que 14 vice-presidentes americanos acabaram assumindo o posto.
Mas
a brincadeira para a própria Dowd parou aí. Ela lembra que
Obama não é o mesmo perto de Hillary – a agressividade, a tenacidade e a figura da oponente
parecem paralisar um político, Obama, que demonstrou ser um excepcional encantador de públicos. Talvez tenha sido
esse o principal “serviço” prestado por Hillary, ainda que involuntariamente,
durante a campanha política.
Pois está claro
agora que Obama tem de correr
e dizer quem é – ainda que a gente
possa se perguntar: nessa altura do campeonato, Obama precisa ainda dizer quem
é? Precisa.
A eleição nacional é completamente diferente da disputa entre
os democratas, nas quais, por
sinal, Hillary pareceu muito forte em relação a Obama justamente naqueles estados populosos que fazem
a diferença entre republicanos e democratas na conta do voto
nacional.
Hillary deixou
bem evidente para a máquina de campanha eleitoral republicana os pontos nos quais
Obama surge como figura vulnerável: ele precisa, por
exemplo, começar a usar a bandeirinha americana espetada na lapela do paletó.
Pode parecer ridículo ao público brasileiro,
mas, para o americano, demonstrar patriotismo a cada segundo é fundamental para qualquer candidato.
Mais além das
pesquisas de intenção de voto, os pesquisadores
de comportamento eleitoral americano descobriram recentemente que 45% dos eleitores se identificam com os “valores de Obama” (assim mesmo, bem
vago), mas 54% do eleitorado enxerga melhor os “valores
de McCain”). Os republicanos têm
condições, a partir da leitura desses
resultados, de tentar uma campanha baseada
em “valores”, deixando de lado a situação da economia
do país, que lhes é francamente desfavorável em termos políticos.
Vários comentaristas americanos vêm batendo nos últimos
dias na
mesma tecla: mesmo no recente caso das declarações
sobre raça feitas pelo reverendo
Jeremyah Wright, que Obama
se apressou em repudiar, ficou um ar de dúvida se apenas a frase “entendo a situação dos negros americanos, assim como entendo
a situação dos brancos americanos” é suficiente.
Quando os republicanos
falam de “valores”, ao que eles
se referem, além de elementos claramente éticos e morais como casamento
de pessoas do mesmo sexo ou aborto?
A máquina eleitoral republicana fala principalmente de coisas como apego
ao trabalho (em vez de programas
de assistência patrocinados
pelo estado), simpatia pelas vítimas de crime (em vez de “compreensão” pela situação social que levou alguém
a ser um criminoso), proteção
das fronteiras (em vez de tolerar
a entrada de imigrantes ilegais).
Parte ou não
apenas de um mito americano, há algo
mais que o eleitorado nos Estados Unidos valoriza muito, e isso se chamaria aqui do apelo exercido
pelas Forças Armadas e a projeção do poder americano (definido como imperial, decadente, ou o que o leitor
quiser). O fato é que uma boa parte
do eleitorado que tanto McCain quanto Obama querem conquistar considera essencial que um presidente não só fale
duro, mas
prometa agir duro em termos
de política externa.
No fundo,
o problema de Obama é não permitir que ele
seja colocado, pelos republicanos, do lado errado daquilo
que os comentaristas
americanos chamam de
“cultural devide” – a tênue
linha a partir da qual o eleitorado
que ele precisa
conquistar (para vencer as eleições) o consideraria não confiável.
A vitória não está
garantida para Obama. E muitos
dos que se entusiasmaram
com ele aqui no Brasil provavelmente ficarão decepcionados com o que ele, acredito,
começará a dizer agora.