Postado por William Waack
em 17 de Março de 2008 às 20:10
Pelo menos em Washington o St. Patricks´
Day, nesta segunda (17), deveria ter sido
um dia só de festa. Ficou popular também nos Estados Unidos
comemorar (em geral, com muita cerveja) o dia do santo padroeiro da Irlanda. Mas
George W. Bush cancelou a festa
para falar de um assunto que ele
diz que não
é tão grave assim: a crise financeira mundial.
É óbvio para qualquer operador
de mercado em começo de carreira que Bush (ou qualquer
outro chefe de governo de economia importante) não poderia ter dito
nada diferente do que foi ouvido hoje.
Em vez de crise, o presidente americano prefere a palavra “desafio”. E chegaram
os americanos à recessão? “Todo mundo vai nos invejar
em pouco tempo”, respondeu.
Poderia-se esperar menos ainda que
o presidente americano, ou qualquer um de seus principais subordinados, dissesse se o governo em Washington está disposto a salvar outros bancos
em dificuldades (como foi feito
com o Bear Stearns) ou se há
outro pacote em preparação para
aliviar a vida de inadimplentes do sistema hipotecário (Bush aprovou recentemente no Congresso um pacote de US$ 170 bilhões).
Então para quê convocar reuniões? E fazer pronunciamentos? Críticos citados principalmente pela imprensa européia
dizem que a tentativa de Bush nesta segunda de contrapor palavras a um tsunami financeiro (de amplitude, profundidade
e conseqüências ainda desconhecidas) lembra a crise de 1929, que tornou o então presidente republicano Herbert
Hoover um personagem folclórico
– por ter ignorado os sinais
da catástrofe. “Bush se comporta exatamente
como Hoover”, fuzilou hoje, no “International Herald Tribune”, o senador democrata Charles
Schumer.
Não é muito mesmo o que o governo
americano possa fazer no momento, fato reconhecido universalmente.
O candidato republicano à Presidência, John McCain, divulgou uma nota
elogiando a tentativa do Banco Central americano, o
Federal Reserve, de dar ânimo
ao sistema financeiro (nem que fosse salvando um banco que criou
as próprias dificuldades) –
e sequer mencionou Bush. A impotência do governo deixa os
mercados tranqüilos. O medo deles é admitir que o Fed possa ter chegado ao
final de seus instrumentos.
Ben Bernanke, o presidente da instituição,
é respeitado no mundo acadêmico como
um dos grandes estudiosos da depressão dos anos 1930, iniciada pelo crash de outubro de 1929. Mas o argumento principal dos céticos em relação
à capacidade do Fed de atenuar a crise é de fundo: para combater uma questão de liquidez, nem o dinheiro do Fed (US$ 800 bilhões)
adianta. Para combater uma crise de insolvência
(isto é, inadimplência de quem tomou hipotecas),
menos ainda.
Há algumas semanas
o celebrado colunista Paul Krugman resumiu a característica mais preocupante da crise: ela é de confiança, a base do funcionamento
de qualquer sistema econômico. Diante dela Bush parece,
de fato, bastante pequeno. O mesmo tipo de solução para a recessão de 2001 (afrouxo monetário) já foi tentado
e a crise parece estar se aprofundando com muita rapidez.
Se as conseqüências
econômicas, como
dito acima, são muito difíceis
de serem previstas, as conseqüências políticas parecem razoavelmente claras, sobretudo para a política americana, que está diante de uma importante decisão em novembro
próximo. A idéia de que o governo americano
é incompetente ou incapaz alastra-se numa situação política
na qual
a palavra “mudança” é a mais pronunciada.
Mudança beneficia
os democratas – e vai de encontro à percepção generalizada
de um governo que tenta com palavras (mais uma vez)
tapar a realidade. Mesmo quando
Bush, como ocorre agora, não possa fazer outra
coisa a não ser parecer otimista.