Espírito militar está presente nas
primárias americanas
por William
Waack
31 de Janeiro de
2008
Seria incorreto chamar a sociedade americana de “militarizada” mas, para quem
viveu nos Estados Unidos mesmo por pouco
tempo, chama a atenção o quanto do jargão militar faz parte
da linguagem do dia a dia.Um exemplo
é dizer que fulano está “flying under the
radar” – uma velha expressão de combates aéreos usada para
descrever alguém que se comporta de maneira furtiva.
Outro exemplo é expressão idiomática “going over
the top” (superando o topo),
muito usada quando se quer dizer que alguém
assumiu uma iniciativa. O “top”, nesse caso, é o parapeito da trincheira, o momento em que
o soldado de infantaria sai da sua
relativa proteção e é
obrigado a encarar o fogo inimigo, correndo para o ataque.
Os
americanos cultivam seus muitos monumentos
(e mitos) de guerra. Ser um veterano de
alguma campanha – e praticamente a cada geração houve uma
grande campanha militar
Há exatos 40 anos os americanos
passaram por um trauma militar que tem conseqüências políticas até hoje. Em
janeiro de 1968, numa ação complexa, sofisticada e bem planejada, o exército do então Vietnã do Norte e o
Vietcong lançaram a ofensiva
do Tet (assim denominada devido aos feriados de três dias do Ano Novo vietnamita,
no final de janeiro). A surpresa
foi total e os guerrilheiros vietcongues conseguiram invadir até mesmo a bem
defendida Embaixada dos Estados Unidos em
Do ponto de vista estritamente militar, a ofensiva
do Tet acabou sendo uma catástrofe
para o Vietcong, que perdeu em três
meses de combates quase dois terços
dos efetivos (e não mais recuperaria a antiga força e a iniciativa, a cargo a partir dali do exército regular do Vietnã do Norte). Mas os americanos, que não perderam
nenhum dos grandes confrontos militares no Vietnã, sofreram em janeiro de 1968 uma derrota política
da qual não
mais se recuperariam – ao contrário, janeiro
de 1968 vale como o início
de uma virada que só terminaria
com a retirada completa sete anos mais
tarde.
John
McCain, o homem que lidera a corrida entre os republicanos
pela nomeação de seu candidato à
presidência, é um veterano daquela época. Piloto de combate da Marinha,
foi abatido sobre Hanói em
1967, fraturou os dois braços e uma
perna, foi torturado e, quando recebeu uma oferta
de libertação, disse que só iria
embora se os outros prisioneiros de guerra fossem com ele.
Existe na sociedade americana o culto do indivíduo herói, do líder destemido e, principalmente, da idéia da
lealdade e do patriotismo
sob quaisquer circunstâncias.
É um fator político-psicológico
de primeira linha e, se
McCain acabar sendo o presidente americano, devolve à Casa Branca uma
geração de políticos que sabe perfeitamente
bem o que significa uma guerra
(o piloto de guerra Bush pai foi abatido
em águas japonesas em 1945; John Kennedy também entrou em
combate no mesmo conflito, para não falar de Eisenhower).
McCain atribui a si a decisão que Bush tomou, há quase
um ano, de reforçar consideravelmente o número de militares americanos empregados exclusivamente na segurança
de Bagdá. Não é só uma lição militar (o comandante americano no Vietnã, William C. Westmoreland, exigiu
e conseguiu cada vez mais tropas,
com cada vez menos resultados). McCain entendeu que o significado político de “apaziguar” Bagdá (não importa quanto
isso dure, evidentemente) era bem mais importante do que a resistência, no eleitorado americano, a mandar mais gente
morrer numa guerra impopular e desastrosa.
Não deixa de ser curioso
(trágico, se o leitor preferir) que uma
das perguntas que mais se repete
aos eleitores americanos, nas pesquisas de opinião, é a célebre “quem você
acha que está melhor preparado
para ser comandante-em-chefe
das Forças Armadas?” E que numa época de crise
econômica, as pesquisas indiquem – e não é paradoxo algum – que boa parte dos eleitores prefere alguém que seja
capaz de mostrar liderança, e nem tanto quem demonstre
ter grandes conhecimentos de economia (
Há grandes temas, bastante abrangentes, que tem enorme peso na
eleição