A estratégia
assustadora de McCain
João Carlos Barradas
April 30
Filho e neto de almirantes, piloto da Marinha, prisioneiro
no Vietname, John McCain afirma
“odiar a guerra” e estar disposto a promover a democracia através da “defesa
das regras da sociedade internacional
civilizada e da criação de novas instituições internacionais necessárias ao avanço da
paz e liberdades”.
A declaração
consta do discurso pronunciado a 26 de Março, em Los Angeles, ante o World Affairs Council, e sustenta as teses do candidato republicano sobre a “liderança norte-americana” num mundo com múltiplos centros de poder democráticos, da Índia à
União Europeia, e onde cresce a influência
de estados como a Rússia e a China.
A explanação
sistemática dos objectivos
de política externa de
McCain foi inicialmente ofuscada pela disputa
entre os candidatos democráticos, mas à medida
que tem vindo a aumentar a real possibilidade de uma vitória republicana
na eleição presidencial de Novembro cresce também a perplexidade sobre o discernimento estratégico do senador do Arizona.
A liga
McCain
McCain considera
que o diálogo com os parceiros democráticos
dos Estados Unidos obriga Washington a adoptar um comportamento de acordo com os valores
constitucionais e, consequentemente,
o repúdio pela “tortura ou tratamento
desumano de suspeitos terroristas detidos”.
O fecho
da prisão de Guantánamo e a negociação com estados aliados de “um novo entendimento internacional” sobre o estatuto de “detidos perigosos” é o corolário desta louvável posição de princípio.
Uma velha instituição
internacional como as Nações Unidas não
colhe, no entanto, referências de McCain que defende o reforço das “alianças globais”
de Washington como “o núcleo
de um novo pacto global – A Liga
das Democracias”.
A Liga
é definida por McCain como o conjunto
de “mais de uma centena de nações democráticas” capazes de “promover os nossos
valores e defender os nossos interesses comuns”.
Outra declaração de princípio de McCain acerca da participação norte-americana em negociações para estabelecer um sistema pós-Quioto, global e “economicamente
responsável”, de controlo das emissões de gases com efeito de estufa é suficientemente genérica para permitir qualquer
tipo de entendimento.
O acordo
de comércio livre estabelecido em 1994 entre os Estados
Unidos, Canadá e México é, por seu turno,
apontado por McCain como exemplo a seguir para a prosperidade
da América Central e do Sul e aqui o senador
faz bem melhor
figura do que os candidatos democráticos.
Cuba não
foi referida na alocução
de Los Angeles, mas o candidato
afirmou noutras ocasiões considerar impossível alterar a actual “política de contenção” antes da realização na
ilha de eleições livres e da libertação
dos presos políticos.
Para McCain o bloqueio a Cuba é, aliás, um exemplo de estratégia política de sucesso porque permitiu eliminar a influência de Havana na América
Latina e em África.
Transparência e respeito pela legalidade são, noutra frente,
duas condições essenciais para o progresso dos estados africanos, segundo McCain que promete prosseguir
o apoio de Washington no combate
à SIDA e à erradicação da malária num continente onde o imprescindível auxílio externo privilegiará países amigos.
Contra russos e chineses
A estratégia global de McCain
passa essencialmente pela ideia de excluir
a Rússia do G8 que passaria a incorporar o Brasil e a Índia.
A par desta proposta o candidato republicano defende o alargamento da NATO a todos os estados democráticos
contra os perigos de “uma Rússia revanchista”.
A China é, por sua vez,
considerada “um desafio
central” e por ser um estado
não-democrático Washington terá
de basear a sua relação com Pequim em “interesses partilhados pontuais”.
McCain exige um comportamento “mais responsável” por parte da
China e que Pequim abandone tentativas de entendimentos regionais e acordos económicos para excluir os
Estados Unidos da Ásia.
O défice
comercial com Pequim e os investimentos chineses em títulos
do tesouro dos Estados Unidos não mereceram
particular atenção a McCain que
ignorou, igualmente, qualquer perspectiva de reforma de instituições como o Banco Mundial ou FMI.
Apesar de excluir Moscovo e Pequim da sua Liga
das Democracias e do G8, o senador, que se apresenta como “um idealista realista”, crê poder contar
com a cooperação russa e chinesa para “deter e reverter a proliferação nuclear”
e, até, reduzir os arsenais existentes.
Em Los Angeles McCain não sentiu necessidade de elaborar sobre as declarações sucessivas em que tem reservado
para os Estados
Unidos o direito de desenvolver novos sistemas anti-mísseis, incluindo a componente militar espacial, face à ameaça de estados-párias
como a Coreia do Norte e de
competidores estratégicos como a Rússia e a China.
Nem autocratas, nem realismo
O programa
nuclear militar do Irão, apontado por McCain como um risco
intolerável que poderá justificar um eventual ataque militar, será eliminado graças aos esforços
da “comunidade internacional” na versão estratégica apresentada na Califórnia.
A “ameaça
do terrorismo radical islamita”,
tido como a mais perigosa pelo
risco de implicar armas de destruição maciça, obriga, por sua vez,
a uma “estratégia agressiva de confronto e eliminação onde quer que os
terroristas tentem operar” McCain reconhece que, além do recurso
à força militar,
será imperativo ganhar o apoio da maioria moderada
dos fiéis muçulmanos e criar “estruturas internacionais para uma paz durável”.
Para precisar
a sua ideia, McCain afirma que a ordem
e estabilidade no Grande Médio
Oriente não serão asseguradas por “autocracias ultrapassadas”, como, por exemplo, a família real saudita, os generais paquistaneses
ou os líderes
do Egipto, ainda que admita como
indesejável “actuar de
forma precipitada ou exigir mudança imediata” para reformar tais regimes.
O candidato
republicano ignorou o conflito israelo-palestiniano na alocução de Los Angeles, mas é conhecida a sua ambiguidade nesta questão de forma a manter em aberto
todas as opções negociais, incluindo a possibilidade de propor concessões territoriais do estado judeu para
avançar conversações de paz que excluam
o Hamas.
No arco
que vai do Médio Oriente ao
Sudeste asiático, passando pela Ásia
Central e o subcontinente indiano,
McCain identifica como “pilares para a construção de uma paz segura” estados
democráticos como a Turquia, Israel, a Índia e a Indonésia.
O Iraque
e o Afeganistão surgem, entretanto, como
elementos centrais para “o triunfo da tolerância religiosa”,
implicando a prossecução de
um esforço de guerra que tem por objectivo
a criação de “estados democráticos pacíficos, estáveis e prósperos que não representem
uma ameaça para os vizinhos
e contribuam para a derrota dos terroristas”.
Incoerente e assustador
O roteiro
de McCain é assustador na sua incoerência,
total falta de realismo e subestimação de condicionantes económicas e financeiras.
Mais do que uma
mescla de velhos filões do realismo republicano em matéria de relações internacionais, partilhado por alguns conselheiros
de McCain como Henry
Kissinger ou Richard Armitage,
o que se vislumbra nas intenções estratégicas
do candidato é uma tónica intervencionista e de confronto marcada pela ideologia neoconservadora de William Kristol
ou Robert Kagan.
John McCain, caso venha a ser eleito presidente, será submetido de imediato a tamanho duche frio de exigências
e aflições que nem vislumbre de Liga das Democracias
ou refundação do G8 se salvarão.
Ainda antes que Pequim ou Moscovo
pressionem o eventual presidente
republicano, a apreensão de aliados em Berlim, Tóquio
ou Riade será tal que
ou McCain arrepia caminho ou condenará
os Estados Unidos a um intervencionismo voluntarista capaz das maiores desgraças.
É preocupante
o estado de espírito que anima McCain na
sua pretensão de reformar o mundo.