Jornais
em crise? Ande de avião
Fernando Canzian
18/05/2009
DE NOVA
YORK - Na semana passada, o
Comitê Nacional de Transportes dos EUA realizou audiência sobre a queda de um avião em 12 de fevereiro passado em Buffalo (NY).
A tragédia matou
49 pessoas a bordo e mais uma em
terra.
Em questão de horas, dois dos melhores jornais norte-americanos, o "The New York Times" e o
"The Wall Street Journal", trouxeram à tona histórias sinistras sobre como as empresas aéreas no país deceparam custos. A ponto de comprometer a segurança dos que voam muito em
um país continental como os EUA.
A copiloto
do avião que se espatifou em Buffalo havia passado a noite inteira viajando
em uma poltrona
comum da Costa Oeste dos EUA para
Newark, ao lado de Nova
York (sua base). Ao chegar,
assumiu pela manhã a segunda posição de comando no voo.
Já
o piloto, investigou o
"WSJ", havia omitido
duas vezes de sua ficha de contratação
o fato de ter falhado em voos
simulados em casos de emergência. Detalhe: as falhas ocorreram em situação idêntica
à que provocou a queda do avião.
Um dia depois, o "NYT" trouxe outros casos. Outro piloto
regional comprou um carro velho, que quase
não anda, para deixar estacionado
na garagem
de sua "base" de voos,
a centenas de quilômetros
de sua cama e família, do outro lado do país.
Ele usa
o carro para tirar cochilos. Assim como
vários outros que dividem quartos de US$
200/mês de famílias próximas
a aeroportos para ter um "crash pad" (um lugar
macio para cair), onde podem
descansar por algumas horas.
Uma tabelinha simples e didática na capa
do "NYT" mostrou que
um capitão com mais de 40 anos de idade e com dez anos ou
mais de experiência tem salário médio de US$ 5,8 mil/mês sem qualquer
benefício. Seu copiloto, US$ 2,7 mil. Nos EUA, são
remunerações chocantes para o tipo de função.
Muitos desses pilotos,
ficamos sabendo pelos jornais, têm em média
só 8h30min por dia para chegar
a um hotel, trocar de roupa, dormir, levantar e estar prontos para um novo voo.
Nos EUA, há
uma discussão enorme sobre a chamada "crise dos jornais", traduzida em queda de circulação,
receita e dívidas. Há um mês, o "NYT", por exemplo, entrou em acordo com seus
jornalistas e cortou salários em 5% neste ano para
evitar demissões. Ameaçou ainda fechar
o "Boston Globe", do qual é dono, se um acordo parecido não fosse aceito.
Além
de muitos problemas exclusivos de má gestão nos jornais
americanos, fala-se também em necessidade
de "reinvenção". Isso seria necessário
por causa da massificação da internet, com seus milhões de blogs e opiniões para todos os
gostos.
Opinião, todo mundo tem. Mas é preciso
1.300 jornalistas para se fazer um produto com a qualidade do "NYT" e levantar
histórias como
as acima enquanto se acompanha também ao vivo guerras no Iraque e no Afeganistão, o fim da guerra
civil no Sri Lanka e as enchentes no Maranhão.
Devido à importância que se dá para
o setor nos EUA, o Congresso norte-americano começa a se debruçar mais uma
vez sobre o tema, a exemplo
do que ocorreu em uma crise
de menores proporções na década de 1970.
A partir
dali, o chamado
Newspaper Preservation Act permite que dois ou
mais jornais competindo numa mesma região formem
uma espécie de cartel, com preços de assinaturas e anúncios idênticos --desde que suas
redações continuem independentes. A ideia é evitar o canibalismo entre as duas empresas já em
crise.
Enquanto os parlamentares discutem outras medidas para preservar
o setor, os próprios jornais vão repensando ações passadas. O "NYT", por exemplo, já considera
voltar a cobrar pelo seu conteúdo
disponível na
internet (a exemplo do que faz o "WSJ", com quase
1 milhão de pagantes).
Alguns jornais também
se reuniram para criar equipamentos portáteis que permitem
a leitura online de seus conteúdos em uma
tela maior do que a de um computador, o que facilitaria também a venda
de anúncios para esse tipo de mídia.
Mas,
embora o mercado de jornais impressos nos EUA venha
encolhendo, ele é ainda gigantesco. Apenas os
três maiores, "USA
Today", "NYT" e "WSJ", têm circulação conjunta de mais de 5 milhões de exemplares. Além disso, a procura por seu
conteúdo na
internet aumenta rapidamente.
No Brasil,
se somarmos todos os grandes jornais
nacionais e regionais não chegaremos à metade da circulação
dos três maiores norte-americanos. Além disso, ao contrário
dos países avançados, a circulação dos jornais brasileiros cresceu nos últimos anos.
E tem ainda uma larga
avenida pela frente à medida em que aumentar
a renda da população.
Fernando Canzian, 42, is a special reporter for Folha. He was the
managing editor and editor of Brasil and Painel, and a correspondent in Washington and New York. He
won the Prêmio Esso in 2006.
He writes on Mondays.
E-mail:
fcanzian@folhasp.com.br