O ataque da rua
02/04/2009
NOVA YORK - Demorou, mas foram
os próprios líderes mundiais que deram a deixa
e armaram o palco para a volta dos protestos de rua há muito adormecidos.
Há quase dez
anos não se via o que ocorreu em
Londres nesta semana por conta
da reunião do G20, grupo de países (Brasil incluso) que respondem por
80% do PIB global. As últimas
manifestações do tipo,
contra a OMC (Organização
Mundial do Comércio), o FMI
e Banco Mundial já estavam quase entrando
para os livros
de história contemporânea.
Enquanto os líderes
mundiais chegam à reunião do G20 com expectativas e
propostas divergentes, a rua mostrou que
sua agenda, embora difusa, está bem
definida: quebradeira e revolta geral contra o estado das coisas.
Contra um empobrecimento
que pode ter sugado US$ 50 trilhões da riqueza
mundial. Sem falar em milhões
de demissões, perda de residências, corte em limites de cartões
de crédito e no escárnio
dos bônus pagos a executivos das empresas falidas --a recompensa aos que provocaram a maior crise mundial
desde a Grande Depressão.
Tudo isso se materializou
mais uma vez nas ruas,
ainda que de forma talvez incipiente, às barbas do convescote
do G20. Encontro que, aliás, reproduz outro parecido, também na capital britânica, em 1933, no auge da Grande Depressão. Para a infelicidade geral, ele não deu
em nada.
Os alvos
dos protestos foram o RBS (Royal Bank of Scotland) e a sede
do Banco da Inglaterra, pivôs da perda de bilhões
de libras dos contribuintes
britânicos na atual crise financeira
global. Janelas foram despedaçadas e portas arrombadas em meio
à gritaria geral. Outros bancos secundários
também sofreram com a fúria dos manifestantes.
Simbolicamente, os descontentes
também se reuniram e trocaram sopapos com a polícia em Trafalgar Square. Na praça, no coração de Londres, repousa a estatua do almirante
inglês Nelson. Em 1805, na costa da
Espanha, Nelson derrotou as
armadas francesa e espanhola,
barrando o poder imperial
de Napoleão no Atlântico.
No final de abril, haverá outro
encontro de caráter global.
Desta vez em Washington, quando o FMI e o Banco Mundial devem se reunir. Não é pequena a chance de novos protestos, principalmente porque nos EUA a situação
geral é muito pior do que no resto do mundo desenvolvido.
Ao contrário de Europa e Japão, os EUA não
têm redes de proteção social ou segurança mínima na área do emprego.
E as demissões no país não cessam. A expectativa
é que superem 750 mil em março, sobre
quase 1,2 milhão em janeiro
e fevereiro. A sangria entrou
em uma velocidade
sem precedentes.
Muitos dos que torciam
pela chegada do fundo do poço começam
a por as barbas de molho. O Banco Mundial já fala em
retração global de 1,7% em 2009, quase o dobro da prevista
pelo FMI há um mês. A OCDE,
que reúne os países mais
desenvolvidos, em -2,75%.
Não é recomendável torcer ou apoiar
a quebradeira de bens privados
ou públicos, mas o fato é que
essa onda pode estar começando.
No passado, os manifestantes contrários ao FMI, Banco
Mundial e OMC protestaram muitas
vezes incentivados por questões ideológicas,
abstratas ou idiotas.
Desta vez, as razões são dolorosamente palpáveis.
Fernando Canzian,
42, é repórter especial da
Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou
um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail:
fcanzian@folhasp.com.br