Bush: missão
cumprida
19/10/2008
WASHINGTON - Entre a eleição americana em 4 de novembro e a posse do
novo presidente, o mundo ainda terá 77 dias
de George W. Bush.
Felizmente, Bush não vai escapar tão
fácil da História: no mundo das imagens, ou da
"indústria cultural", como
inventaram Horkheimer e Adorno, Bush acaba de ser escancarado para o grande público no ótimo "W.", novo filme
do diretor Oliver Stone ("JFK", "Doors",
entre outros). Com uma espetacular e comovente atuação de Josh Brolin no papel do presidente.
Bush a bordo
de porta-avião em 2003, quando declarou "missão cumprida" no Iraque; o país árabe vive em meio
ao caos até
hoje
Mesmo sem ser antipático
a Bush (ao contrário), o filme acaba funcionando
como mais um prego no caixão do presidente e de sua família, há 200 anos ciscando ao
redor do poder nos EUA.
É também
um tapa na
cara dos americanos que o elegeram duas vezes. Na segunda, por sinal,
Bush e os republicanos tiveram uma vitória
completa em 2004: no voto popular, no Colégio Eleitoral, na
Câmara e no Senado e na maioria dos Estados.
Entre a reeleição
de Bush e o final de seu segundo
termo agora, os EUA passaram do auge do unilateralismo, da arrogância e do uso da força
para um apelo para a cooperação internacional sem precedentes. Se países falissem, a América
de Bush seria o mais espetacular caso de quebra da história
contemporânea.
Em quatro anos,
a sorte dos EUA e de Bush mudaram da água
para o vinho, com forte impulso negativo dado pelo comando presidencial
e seu pequeno e obtuso núcleo de poder.
Em 2003 e 2004, tive o privilégio de acompanhar em Washington tanto os fatos que
precederam a Guerra do Iraque
quanto, mais à frente, a reeleição de Bush.
Os EUA eram outro
país. Os grandes jornais
acreditavam piamente em quase tudo
o que o presidente dizia. As pessoas
estocavam água, alimentos e pilhas em suas casas
a cada sinal de uma nova catástrofe terrorista. O Patriot Act permitia
o monitoramento de milhões
de telefonemas entre americanos
comuns, e o governo enchia a atmosfera
com o mais potente medo que pudesse
criar.
Assim Bush se reelegeu, ludibriando
os fáceis de ludibriar norte-americanos médios com histórias de terror.
O filme
de Stone é apenas um sinal
do fim melancólico da era Bush. Os então todo-poderosos assessores do presidente --com poder para gravar, interrogar
e prender-- são agora expostos de forma inimaginável há quatro anos.
A ponto de o principal jornal
gay (e gratuito) de Washington, "Blade", questionar em manchete
nesta semana: "Is Condie Gay", em referência à nada menos que a secretária de Estado dos EUA, Condollezza Rice --solteirona assumida como o nosso
prefeito Kassab.
Os anos
Bush também deixaram que uma indelével
rachadura aparecesse na maior
economia do mundo. Descobriu-se que os EUA mal teriam
crescido nos últimos cinco anos
não fosse a propulsão do consumo. Surpresa: ele era financiado por créditos sem lastro que giravam no vazio. O país está
quebrado.
A nação
mais rica(?) e militarmente poderosa está de calças curtas ao
final do reinado de Bush. Mesmo
a solução mais coerente para a
atual crise --injetar capitais diretamente nos bancos-- partiu de além-mar, do Reino Unido, e foi replicada
nos EUA. É
tudo incrível.
Mas, por mais
extraordinário que pareça, com sua arrogância e ignorância, Bush talvez tenha prestado
um imenso serviço.
Se os
EUA crescerem muito próximo de zero nos próximos dois
ou três anos,
o que é muito possível, o tamanho da economia chinesa
terá passado de 1/3 da americana
para mais da metade. Outros vários
emergentes também ganharão nacos maiores nessa participação
global. Ao menos em termos econômicos, o mundo será outro.
Esse talvez seja
o principal legado de Bush.
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha.
Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio
Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br