Quem apagou a chama olímpica?
O desporto, as suas organizações internacionais como o Comité
Olímpico, a FIFA, a FIA, a ATP e outras
têm vindo a tornar-se numa espécie de poderes transnacionais não legitimados.
As leis são próprias, os
regulamentos são impositivos (e por vezes sem apelo),
os interesses comerciais não têm regulamentos nem leis "anti-trust" que
os contenham e - o que toda a gente
sabe - dispõem de políticos, influem nas decisões e, como corolário de tudo isto, ainda
conseguem ser subsidiados pelos enormes 'serviços' que prestam.
Será por factores
assim que a rotatividade dos dirigentes de topo destas associações
é verdadeiramente baixa; recorde-se que no COI, o
antecessor do actual presidente, que
foi eleito em 2001, esteve no cargo... 21 anos!
A decisão do COI em escolher Pequim como sede da
Olimpíada de Verão deste ano repete
duas decisões semelhantes de realizar Jogos Olímpicos em regimes de ditadura: 1936, em Berlim, com Hitler; 1980, em Moscovo com Brejnev.
Mas se os jogos
de Berlim, perante um
Hitler ascendente, foram os maiores até
então, os de Moscovo, perante em Brejnev decadente
foram amplamente boicotados, sendo os menos participados
desde 1956, ano em que se tinham
realizado na
longínqua cidade de
Melbourne, na Austrália.
Agora, em função da
escolha de Pequim pelo COI, e depois dos acontecimentos do Tibete, a chama olímpica anda em bolandas
e protegida pela polícia em cada
cidade onde passa.
Será o regime chinês menos brutal hoje do que o russo em
1980? Ou, pura e simplesmente, o mundo já não pode
viver sem
esta China, cujos capitais seguram os bancos americanos?
Seja como for, é certo
que os interesses
comerciais dos Jogos são tais, o poder
do desporto é tão grande, que as velhas máximas do barão de Coubertin não podem ser aplicadas no mundo actual.
A possibilidade do boicote
resume-se agora à cerimónia
de abertura - o que o Parlamento Europeu acolheu quase por
unanimidade (580 votos a
favor, 24 contra) e que o secretário-geral da ONU vai cumprir. Mas afasta-se o boicote total. Porque este, além
da penalização para a China, reverteria no descrédito do COI e, principalmente,
no enorme prejuízo para os negócios
à volta do olimpismo.
A verdade é que a velha chama olímpica
que anda agora protegida pela polícia, muito antes de ter sido apagada
por manifestantes foi extinta pelos
emaranhados e complicados interesses comerciais do desporto moderno.
Com boicote ou sem ele, o espírito já faleceu
há largos anos...