Ultraje no Afeganistão
16 de janeiro
de 2012
O Estado
de S.Paulo
A primeira vítima das guerras é a verdade, já se sabe. Mas a extinção
do sentido elementar de decência humana vem logo atrás. Guerras não são nem
galantes nem cavalheirescas. São brutais e bárbaras. Sempre foram e sempre serão. Fica
apenas a tênue esperança de que o testemunho documentado de atos de brutalidade e barbárie leve à punição dos perpetradores e ao enxovalhamento moral que as cadeias de comando a que respondem,
militares e civis, tenham feito por
merecer. Afinal, apesar de transgredidas, quando não reduzidas
a objetos de escárnio - como nos Estados
Unidos de Bush -, continuam
em vigor as convenções internacionais sobre o que podem ou
não podem fazer os soldados
e sobre os limites das ordens
recebidas de seus superiores, para diminuir a incidência de crimes
de guerra.
É verdade
que, no caso na ordem do dia
- o vídeo que mostra quatro fuzileiros
navais americanos urinando nos cadáveres
de três afegãos, possivelmente militantes do Taleban -, não há motivo para
supor que os oficiais do 3.º Batalhão do 2.º Regimento de fuzileiros navais tenham assistido impassíveis à cena repulsiva ou mesmo
sugerido a profanação dos corpos. Não se sabe quem gravou as imagens que foram parar
no YouTube, o destino hoje em dia
natural de uma infinidade
de tomadas de todos os gêneros concebíveis.
O episódio ocorreu em algum momento
entre março e setembro de 2011, quando a unidade de mil homens servia no Afeganistão, de onde o presidente Barack Obama pretende desengajar no correr deste ano
eleitoral em seu país cerca
de um terço dos 100 mil soldados
americanos ali
acantonados.
Tampouco os escalões superiores podem ser responsabilizados pela execução, "por esporte", de três civis afegãos, entre janeiro e maio de 2010. Dez meses depois,
por sinal, o cabeça do grupo de soldados assassinos foi condenado a 24 anos de prisão. Mas oficiais e praças são acusados
pelo governo de Cabul da tortura e morte de afegãos detidos na
base de Bagram, no interior do país.
O WikiLeaks já tinha revelado em 2010 a existência de um destacamento formado para eliminar os
insurgentes que conseguissem capturar. E há o registro mais
ignominioso de todos - as fotos de militares americanos, entre eles a soldada Lynndie England, que virou celebridade, torturando iraquianos na prisão de Abu Ghraib, em Bagdá. As imagens
se tornaram o símbolo da ocupação do Iraque. Onze torturadores foram condenados a penas brandas.
Nenhum oficial foi punido,
embora soubessem das atrocidades.
Abu Ghraib, Bagram e todos os lugares não
identificados onde ultrajes foram ou continuam sendo
cometidos em nome da "guerra ao terror" são filiais do último círculo do inferno instalado a milhares de milhas do Oriente - a base naval americana
de Guantánamo, em Cuba. A sua transformação em um dos mais infames presídios do mundo completa este mês
10 anos. Relatos dos horrores que
se praticam no "centro
de detenção" por onde já passaram
800 pessoas não cessam de circular. Leia-se
o artigo Meu pesadelo em Guantánamo,
do bósnio de origem argelina Lakhdar Boumediene, publicado no New York
Times e transcrito dia 12 neste jornal. O autor até que
se guardou de detalhar o que sofreu em
sete anos e meio de encarceramento até ser inocentado de uma acusação absurda.
(Ele vive hoje na França.)
Fechar Guantánamo em um ano a contar
da posse foi a grande promessa descumprida do presidente Obama. O seu governo não conseguiu
decidir o que fazer com os 171 presos remanescentes. Desses, apenas 4 cumprem pena
por terrorismo. Trinta e dois aguardam julgamento.
Noventa têm condições de ser transferidos - não se sabe quando nem
para onde. E 46, considerados perigosos demais, ficarão mofando na
base. É como Obama dizia: os Estados
Unidos criaram em Guantánamo mais
terroristas do que levaram para lá.
E quando há uma chance de começar a conversar com o Taleban, para o que os
EUA dependem do presidente afegão Hamid Karzai, vem o que ele
chamou um "ato simplesmente desumano".
Washington deve cumprir logo, por motivos políticos,
o dever moral de punir os envolvidos com todo o rigor dos códigos militares.