De Pomona a Marte
Demétrio Magnoli
30 de setembro
de 2010
A estátua de Pomona, a deusa romana dos pomares, símbolo da abundância, está fincada bem à frente
do Hotel Plaza, em Nova York. Um quarto de século atrás, em
setembro de 1985, representantes
dos EUA, da Alemanha Ocidental, do Japão, da França e da Grã-Bretanha assinaram ali o Acordo do Plaza, que promoveu a desvalorização do dólar em 50% ante o marco e o iene. Hoje, novamente, a economia
global necessita de um dólar
mais fraco. Inexiste, contudo, uma vontade comum
capaz de propiciar a coordenação das políticas monetárias das potências.
O ciclo
de expansão encerrado pela quebra do Lehman Brothers evoluiu sob o signo do desequilíbrio. A poupança compulsória de chineses pobres financiava o consumo exuberante da classe média americana,
um paradoxo que se reflete no espelho financeiro pelo colossal superávit em conta
corrente da China e pelo déficit insustentável em conta corrente
dos EUA. A crise em curso pode
ser interpretada como uma longa correção
desse desequilíbrio, com a redução do nível de consumo americano e a ampliação do consumo
chinês. A China, porém, não parece propensa
a reproduzir o comportamento
de alemães e japoneses no
Plaza.
Pequim protege a sua moeda com um zelo historicamente justificado. Yuan, a palavra que nomeia a unidade
de conta do renminbi, é uma
contração originada da expressão "moeda redonda estrangeira". Introduzida no final do século 19
como mimese dos antigos pesos de prata mexicanos, difundidos a partir das Filipinas espanholas
no Sudeste Asiático, o
renminbi conviveu com os cartões de racionamento maoistas e só ganhou
uma taxa de câmbio unificada em 1994.
Hoje, o governo
chinês teme que uma apreciação
cambial aqueça o fluxo de investimentos especulativos e provoque um colapso financeiro similar ao da crise asiática de 1997. O precedente da apreciação de 11%
do renminbi, a partir de outubro
de 2007, que gerou a falência de empresas comerciais e perda de empregos, em nada ajuda os raros
defensores de uma nova tentativa. Além disso, a tese predominante no país assegura que
uma forte valorização não reduziria o déficit comercial americano, mas apenas transferiria exportações para os tigres asiáticos.
Melífluos, os dirigentes
chineses usam "sim" para dizer "não". Em junho, simulando
ceder às pressões de Washington, o banco
central da China emitiu um comunicado
ambíguo que fingia sinalizar o relaxamento dos controles cambiais. O texto carecia de substância - e o
renminbi quase não se moveu. "Todos estamos concluindo que eles não
acreditam que sejamos sérios", queixou-se o senador Jack Reed ao secretário do Tesouro americano, Tim Geithner.
De fato, a autoridade monetária chinesa compra dólares em ritmo
alucinante, sabotando as tentativas de Geithner de produzir
um choque expressivo na taxa de câmbio
bilateral.
Os chineses
não estão sós. Há pouco,
após uma longa ausência, o banco central japonês voltou ao mercado
de câmbio para vender 2 trilhões de ienes, interrompendo a trajetória de valorização da moeda. A Suíça agiu bem
antes, na mesma direção, e quadruplicou suas reservas internacionais.
A zona do euro é um caso à
parte. O Banco Central Europeu
(BCE) aferra-se ao dogma do
euro forte, mas nem mesmo a máquina exportadora alemã pode conviver com a continuidade da valorização
cambial dos três anos anteriores à crise global. Uma depreciação moderada ajudaria a reativar as economias mais fracas do bloco e um aumento controlado da inflação reduziria os déficits que
atormentam Grécia,
Portugal, Irlanda, Espanha
e Itália. Um relatório do FMI indica que
o BCE já promove a desvalorização do euro diante do dólar.
Na falta
de uma ação coordenada, aos solavancos, as intervenções unilaterais dos bancos centrais produzem um alinhamento cambial em taxas similares às vigentes há
duas décadas. O cenário convida à conclusão tranquilizadora de que a economia
global escapou do espectro caótico das desvalorizações competitivas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não caiu nesse
conto, como evidenciam suas declarações recentes. De um lado, persiste a
anomalia central do renminbi fraco.
De outro, os fluxos de capitais de curto prazo pressionam
para cima as moedas de algumas grandes economias emergentes - entre as quais, notadamente, o Brasil. No lugar da correção do desequilíbrio estrutural prévio, caminha-se rumo à criação de novos desequilíbrios.
A raiz
do impasse é geopolítica. O sistema
monetário do pós-guerra perdeu a âncora
da paridade dólar/ouro em 1973, mas conservou
o norte da liderança americana, que se expressava pelo G-5 e propiciava acordos transparentes de coordenação
cambial. No Acordo do Plaza, as cinco
potências provaram que o leme da política
podia substituir o mecanismo
das paridades semifixas adotado em Bretton Woods. De lá para cá,
o leme emperrou. O sistema monetário atual é um edifício heteróclito de regimes de câmbio ancorados, flexíveis e administrados, que abrange ainda uma
vasta união monetária e alguns currency
boards. A erosão da hegemonia americana e a ascensão da China destruíram a unidade política do centro de decisões, que se transferiu do G-5 para o G-20. Pomona, a abundância, cede lugar a Marte, a guerra.
Até agora, o Brasil opera na mesma linha
de japoneses, suíços e chineses, evitando uma forte apreciação do real pelo recurso a
ousadas investidas no mercado de moedas. A tática defensiva destina-se a impedir
a explosão do déficit na conta corrente
do balanço de pagamentos. Mas a acumulação
incessante de reservas em dólares tem um custo financeiro, que logo será proibitivo.
As alternativas são a redução dos juros internos, o que exige cortes de gastos públicos, e a imposição de controles
sobre os investimentos estrangeiros de curto prazo, o que implica contrariar
as altas finanças.
A estação de calmaria chega ao fim.
Fará o próximo governo o oposto exato do que fez Lula?
SOCIÓLOGO, É DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL:
DEMETRIO.MAGNOLI@TERRA.COM.BR