Um Nobel pelas
intenções
Barack Obama foi acordado para
receber a notícia com a qual nem mesmo
ele ousaria sonhar - pelo menos,
não já. Antes de completar nove meses na Casa Branca,
ele acabara de ser contemplado com o Prêmio Nobel da Paz "por seus extraordinários esforços para fortalecer
a diplomacia internacional
e a cooperação entre os povos". A decisão desconcertou o mundo e acrescentou outro marco singular à fascinante saga
do primeiro presidente
negro dos EUA, em meio aos ferozes
ataques de que tem sido alvo em
seu país, não raro com tinturas
racistas, e, principalmente,
quando é demasiado cedo para saber se suas corajosas iniciativas na arena global têm chances de dar certo. Pode-se argumentar, portanto, que o comitê do Nobel resolveu premiar as suas boas intenções na expectativa, quem sabe ingênua,
de contribuir para o êxito das políticas que as expressam.
Os jurados
subscreveram a agenda externa
de Obama, a começar da
"sua visão e trabalho por um mundo sem armas
nucleares", saudaram implicitamente o fim do supremacismo americano que marcou a era Bush - "a diplomacia multilateral recuperou
uma posição central, com ênfase no papel das Nações Unidas e de outras instituições internacionais" - e o papel
"mais construtivo"
agora desempenhado pelos EUA diante dos desafios da mudança
climática. Mas
também ressaltaram os atributos e convicções pessoais do presidente. "Só muito raramente alguém terá capturado
as atenções mundiais como Obama, proporcionando esperanças de um futuro melhor", afirma o comunicado oficial da premiação. "A sua diplomacia se fundamenta no conceito segundo o qual aqueles que se propõem a liderar o mundo devem fazê-lo
com base nos valores e atitudes compartilhados pela maioria da
população mundial."
Apesar das belas palavras, o espanto com que a decisão foi
recebida obrigou o presidente do comitê e ex-primeiro-ministro norueguês Thorbjorn Jagland a defender a escolha
- um constrangimento incomum
na história da láurea. Em
1994, por exemplo, quando o Nobel foi para o primeiro-ministro israelense, Yitzhak Rabin, e o presidente
da Autoridade Palestina, Yasser Arafat, as razões
eram óbvias e incontestáveis. Desta vez, Jagland precisou esclarecer que o prêmio não foi
concedido "pelo que possa acontecer
no futuro". Para ele,
"a pergunta que temos de fazer é quem fez mais durante
o ano para promover a paz no mundo". De fato, ou se adota esse
critério, ao risco de a decisão ser tachada de prematura, ou se espera o tempo dizer que o que
foi feito tornou o planeta mais pacífico. No primeiro caso, o prêmio é um incentivo político - com a vantagem, no caso, de associar o Nobel à imagem do político mais carismático do mundo. No segundo, é o reconhecimento de fatos consumados.
Por enquanto, Barack Obama é um
semeador, condição necessária, porém insuficiente, para um chefe de Estado chegar a estadista. Não se trata, é claro, de minimizar nem a diversidade das iniciativas do presidente nem a intensidade com que as anunciou e passou a defendê-las, criando o "novo
clima" na arena internacional, aplaudido pelo comitê do Nobel. Ele colocou na
ordem do dia a questão do desarmamento nuclear -
para muitos, uma utopia; para outros, um movimento para legitimar o combate à proliferação de armas atômicas. Nessa frente, ora
oferecendo a mão estendida, se o interlocutor abrir
o punho, ora ameaçando com sanções mais duras no âmbito
da ONU, Obama conseguiu levar o Irã a discutir o seu programa nuclear com um sexteto de países, entre eles os próprios
EUA. Foi "um começo construtivo", avaliou. Nem isso
lograram as suas tentativas de reavivar o processo de paz entre israelenses e palestinos - e até onde a vista alcança não se sabe quando, ou
se, os sucessores de Rabin
e Arafat honrarão o Nobel que
eles receberam.
Obama fez história
- história oral, é o caso
de dizer - com o seu discurso na Universidade
do Cairo, ao propor ao mundo islâmico
uma relação fundada no respeito mútuo. Mas
o Islã não se aliou aos EUA
na guerra cada vez mais
difícil (e cada vez mais impopular
nos EUA) contra os fundamentalistas do taleban no Afeganistão. O que já vem
sendo chamado "a guerra de Obama" tem relutante
apoio mesmo entre os governos dos países da União
Europeia onde leva multidões às ruas. O Nobel não deverá mudar
essa realidade.