Cúpula latino-americana apóia
Cuba e pede aos EUA fim do embargo
Iniciativa de 18 países reforça viés antiamericano
dos quatro eventos organizados pelo governo Lula na Bahia
Denise
Chrispim Marin e Tânia Monteiro, enviadas especiais, Costa do Sauípe (BA)
Cúpula da América
Latina e Caribe (CALC), evento
inédito coordenado pelo governo Luiz
Inácio Lula da Silva, divulgará hoje uma declaração especial de condenação ao embargo econômico imposto pelos EUA a Cuba, vigente desde fevereiro
de 1962. Ontem, em brevíssima reunião, os líderes de 18 países latino-americanos que formam o Grupo
do Rio decidiram pela inclusão de Cuba.
Horas antes, o presidente cubano, Raúl Castro, havia lido um breve discurso na reunião
do Mercosul, na condição de convidado especial da presidência brasileira do bloco. Embora tenham pouca
repercussão prática, esses fatos somaram-se
ao claro viés antiamericano dos quatro eventos de cúpula organizados e comandados desde ontem pelo Brasil,
que tiveram como principal estrela o irmão de Fidel Castro.
Nos encontros de ontem, Raúl Castro evitou tocar diretamente
no conflito entre seu país e os EUA.
Indiretamente, atingiu
Washington ao condenar as políticas neoliberais e ao dizer que
a crise internacional foi o resultado de uma "ordem econômica injusta e egoísta", supostamente contrária à adotada nos últimos 50 anos por Havana.
NEGOCIAÇÃO
Na noite
de segunda-feira, ao chegar ao balneário
baiano, ele
havia declarado à imprensa que esperava
encontrar no futuro presidente americano, Barack
Obama, disposição para uma conversa sobre
o fim do embargo. "Se o senhor
Obama quer discutir, discutiremos", afirmou.
"É cada vez mais difícil manter
Cuba isolada. Somos pequenos, mas
demonstramos que não é possível nos dominar facilmente."
Ainda ontem, em
nova atitude de confrontação
a Washington, o presidente da
Venezuela, Hugo Chávez, informou
que defenderá a inclusão de Cuba na Cúpula das Américas. Trata-se de um mecanismo criado em 1994, sob a liderança dos EUA, que deu substância
legal para a negociação da Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) e excluiu Cuba sob a alegação de que o país rompeu com a ordem democrática.
AFINIDADE
Chávez não chegou
a defender o retorno de Cuba à Organização
dos Estados Americanos (OEA), do qual Havana está suspensa desde
o início dos anos 60 pelo mesmo motivo,
mas atacou a organização, qualificando-a de
"ministério das colônias
dos EUA". Raúl Castro descartou ontem a possibilidade de um retorno de
Cuba à OEA, "com ou sem a presença dos Estados Unidos na organização".
O movimento
do Brasil em favor da inclusão de Cuba nos principais mecanismos regionais e de coordenação da América Latina e Caribe, sem influências ou tutelas externas,
teve amplo respaldo. Os países que poderiam fazer
oposição ou ponderação não foram representados nas reuniões por
seus presidentes. Álvaro Uribe, da
Colômbia, e Alan García, do
Peru, desistiram de comparecer
na última hora, por causa
de inundações que afetam seus países.
Assim, as cúpulas na Bahia estamparam a afinidade cada
vez mais forte entre os governos de Brasil, Venezuela e Bolívia nas discussões sobre uma posição
autônoma e independente da América Latina em relação aos
EUA.
"Sem
intromissão do Norte, podemos
resolver nossos problemas, apesar das diferenças", afirmou o boliviano Evo Morales.
"Estamos começando a trilhar um caminho sem a tutela do império. Os EUA já não mandam
mais aqui", disse Chávez.
SAPATADA
Ao chegar atrasado
na Costa do Sauípe, quando a reunião do Mercosul já havia
terminado, Chávez não deixou passar
o episódio do ataque a sapatadas de um jornalista iraquiano ao presidente
dos EUA, George W. Bush, no domingo,
em Bagdá. "Vamos pedir respeito
ao novo governo dos EUA. Vejam os
sapatos que jogaram em Bush. Os que eu trouxe
são muito mais leves."
AS
CÚPULAS DE SAUÍPE
Mercosul: Projeto de mercado comum iniciado
em 1991 do qual participam Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A Venezuela está em processo
de adesão e Bolívia, Chile,
Colômbia, Equador e Peru são associados
Unasul (União de Nações Sul-Americanas): Projeto de integração dos dois blocos do continente, Mercosul e Comunidade Andina de Nações, mais Chile, Guiana e
Suriname. Panamá e México são observadores
Grupo do Rio: Mecanismo latino-americano de consulta criado para mediar
a crise política na América Central, nos anos 80. Ajudou
na solução da guerra Peru-Equador e no conflito recente entre Equador e Colômbia
Cúpula da América
Latina e do Caribe: Projeto de integração latino-americana a partir dos blocos já existentes,
desvinculado da interferência dos Estados Unidos. Em princípio,
está aberto a todos os 33 países
da região