Eleições nos EUA
e nossa agenda democrática
Lourdes Sola
02 de Julho
de 2008
A campanha
eleitoral nos Estados Unidos suscita um tipo de pergunta que solicita
várias respostas, todas válidas. Por que será
que as eleições americanas passaram a mexer tanto com a gente, aqui e nos
outros três cantos do mundo?
Duas mudanças inéditas chamam a atenção do observador. Por um lado, o interesse é global, tem forte carga
emocional e conotação positiva. Inverte-se, assim, a tendência marcada pelas múltiplas
formas de antiamericanismo,
que a guerra no Iraque exacerbou. Por outro lado,
à semelhança do que ocorreu com os "antiamericanismos" (*), diferentes
regiões e países refratam de forma diversa o que há de inédito
na campanha. As reações variam não só em
função da ideologia e dos interesses de quem fala, mas
de onde fala. Se a campanha for analisada de um ângulo sistêmico, e não conjuntural, entender-se-ão melhor as que prevalecem "neste inconseqüente lado do mundo", na expressão de Borges. Cabem, assim, duas
perguntas. O que este ciclo eleitoral
revela sobre a qualidade da democracia
representativa americana? Que tipo de reflexões
inspira sobre a qualidade da nossa?
A democracia
americana revela enorme capacidade das instituições para absorver e filtrar as mudanças na sociedade,
sem desafios à lei. A disputa no Partido Democrata, entre "uma mulher" e "um
negro", aponta para uma questão institucional:
por que razões
e por que mecanismos Hilary Clinton e Barack Obama foram os candidatos
eleitoralmente mais competitivos? A mesma pergunta cabe para
a indicação de John McCain, pois
também reflete um deslocamento no sistema de valores do campo republicano sobre imigração, meio ambiente, laicismo. Tomadas em conjunto, trata-se
de uma "mudança de época" na esfera da política
e refletem uma transformação profunda no sistema de valores e nos critérios de legitimação política da sociedade. Seu
impacto internacional será significativo, porque os Estados
Unidos ainda são um player dominante e porque vivemos na era da informação.
As sociedades
estão expostas a processos globais de interação política e de difusão de valores, sobre os quais
os Estados e as hierarquias partidárias têm pouco controle.
Para além das mudanças no eixo de poder global e do papel dos grandes emergentes, são o vigor e a vitalidade das instituições democráticas americanas - e não a sua economia
- que a campanha eleitoral traz para o centro do debate internacional. Diante dos sucessivos "choques de realidade" aos quais a sociedade foi exposta - desde
as perdas associadas à guerra no Iraque até a crise dos subprimes -, o processo de regeneração da vida social americana se iniciou por meio
da política, e não de políticas específicas. Estas entrarão em cena
agora, na disputa Obama x
McCain.
A decantação
dos candidatos eleitoralmente
mais competitivos ocorreu graças à exposição contínua ao escrutínio da
opinião pública, da mídia e das hierarquias partidárias ao longo de um ano. Passaram pelos
sucessivos testes de stress
a que o sistema de primárias submete as idéias e a capacidade organizatória dos postulantes e a
de seus assessores. Se o recado da sociedade
foi ouvido pelas elites políticas
e econômicas, é porque as instituições foram acionadas pelos dois processos que constituem os motores da
democracia: participação e concorrência.
Instituições não se transplantam.
As primárias por si sós não
constituem um sistema de decantação eficaz sem o lastro que
a cultura cívica americana lhes propicia. Cabe, porém, um paralelo entre a capacidade de auto-regeneração inerente à democracia representativa e as perdas cumulativas de qualidade da nossa
democracia. Celebramos 25 anos da "Constituição
cidadã". Apesar de precária, em termos
de governabilidade econômica,
ela consolidou conquistas sociais, jurídicas e políticas que responderam a mudanças no sistema de valores e nos critérios
de legitimação política da sociedade. Por
isso, falar dos anos 1980 como uma "década perdida" é reducionismo economicista. A diferença específica da nossa
experiência é que, em plena crise
econômica e apesar da megainflação, as forças construtivas da política se fizeram sentir pela pressão ativa
de movimentos sociais autônomos, hostis à nossa matriz conservadora,
de cooptação e de regulação
social pelo Estado. Destaco
dois deles: o "novo sindicalismo"
(de Lula ) e os movimentos
no setor da saúde, que moldaram
o desenho e o conteúdo das políticas sociais relevantes inscritas na Constituição. Hoje, por contraste,
é a tentativa de absorção pelo Estado das forças políticas, sociais e dos interesses organizados que acelera a erosão
do sistema representativo.
Isso é observável em várias frentes.
Uma: a exacerbação da dominância do Executivo , por meio de uma coalizão
governamental no Legislativo,
cimentada pelo acesso aos cargos do Estado, cujo preço é uma
classe política auto-referida, de costas para a sociedade. Segunda: a incorporação dos interesses organizados ao Estado, a quintessência da herança corporativa.
Isto é observável na isenção de prestação
de contas para as centrais sindicais e para o MST, bem como na politização
das agências reguladoras, que permite integrar
ao Estado os interesses empresariais convenientes ao governo, a custos sociais elevados. Terceira e mais sintomática: a relação precária com a lei e a Constituição, reiteradamente contestadas por legisladores no Congresso e em discursos do presidente.
(*) Peter Katzenstein
e Robert Keohane, Anti-Americanisms in World
Politics.
Lourdes Sola, Ph.D. em Ciência Política
por Oxford,
livre-docente e professora da USP, consultora
política da MB Associados, é presidente da Associação Internacional
de Ciência Política (Ipsa)