As notícias que o não são

 

Há esperança de que o Iraque possa ser no futuro um exemplo de um país estável internamente e responsável externamente.

 

João Marques de Almeida

 

Entre 2003 e 2006, havia dois tipos de notícias que faziam as delícias de muitos jornais e comentadores: os atentados no Iraque e os estudos de opinião a mostrar que os Estados Unidos eram a maior ameaça à paz mundial. As notícias confirmavam as ideias de muitos sobre o “expansionismo” norte-americano e o “belicismo” da administração Bush.

 

Nas últimas semanas, surgiram notícias diferentes, as quais foram remetidas para as páginas interiores dos jornais e, naturalmente, ignoradas por aqueles que tudo sabem sobre o Médio Oriente e a política externa norte-americana quando fazem os balanços das mortes e dos refugiados no Iraque. O que dizem então as “não-notícias”?

 

Antes de mais, dizem-nos que os atentados estão a diminuir no Iraque. Os últimos três meses do ano de 2007 foram o período com menos violência desde 2004. Os Sunitas que mandavam no Iraque durante a ditadura de Saddam e os grupos Xiitas mais radicais começam a colaborar com o novo regime. As suas lideranças cooperam cada vez mais, e já não se ouve falar da divisão do país. Os iraquianos estão a combater os grupos armados, compostos por árabes estrangeiros, que vêm para o Iraque para fomentar a guerra civil. Aumenta a confiança entre as tropas norte-americanas e a população iraquiana. Cresce, igualmente, o optimismo entre os iraquianos sobre o futuro do país. Para culminar as boas notícias, os refugiados que fugiram para os países vizinhos estão a regressar ao país.

 

Isto não significa que não continuem a existir problemas muito sérios no país e que se deixe de assistir a casos de violência e de atentados. A situação ainda é muito frágil e há muito por fazer. Um eventual sucesso no Iraque também não justificará intervenções militares semelhantes no futuro. E convém que este ponto fique bem claro. No entanto, as “não-notícias” permitem retirar duas conclusões positivas. Em primeiro lugar, o empenho e a persistência da administração Bush deve ser sublinhada e elogiada. O Presidente norte-americano resistiu a pressões, internas e externas, vindas de todo o lado, para retirar as tropas do Iraque. Teria sido “popular”, teria até ajudado os republicanos a terem melhores resultados nas eleições para o Congresso, em 2006. Mas Bush aguentou, mostrou determinação e está a começar a receber boas notícias.

 

Em segundo lugar, há esperança de que o Iraque possa ser no futuro um exemplo de um país estável internamente e responsável externamente. E não precisará de ser nenhum caso de democracia liberal (perspectiva que de resto ninguém sensato algum dia defendeu). Agora, pode demonstrar que a alternativa na região não terá que ser, necessariamente, uma ditadura brutal ou um regime que apoie grupos radicais e que financie ataques terroristas. Desconfio mesmo que se houver um sucesso no Iraque, as pressões políticas sobre a Arábia Saudita irão aumentar consideravelmente, o que culminará as mudanças da estratégia norte-americana na região.

 

Mas as melhorias no Iraque constituem um desafio para os países europeus. Ao contrário do Iraque, no Afeganistão, a situação está a piorar. Em 2004, os norte-americanos e os europeus fizeram um acordo estratégico. Os primeiros teriam que se concentrar no Iraque e os aliados europeus iriam aumentar o seu esforço no Afeganistão. Assim, aconteceu. Basicamente, as tropas britânicas são as únicas europeias com peso militar no Iraque, e desde a retirada da cidade de Bassorá para os quartéis, no passado mês de Outubro, começa a ouvir-se muitas críticas aos britânicos, vindas dos responsáveis iraquianos (quem diria que se iria ouvir tão cedo elogios à política de Blair no Iraque). Se a situação continuar a melhorar no Iraque e a piorar no Afeganistão, como irá o poder político em Washington (o próximo Presidente) olhar para a aliança com os europeus? Convém pensar numa resposta.

 

E a resposta é ainda mais importante quando se nota o mais recente dos famosos estudos de opinião, cujos resultados surgiram na semana passada. Neste momento, os europeus consideram que, entre as grandes potências, a China é a que mais ameaça os interesses europeus; que a Rússia pode vir a constituir uma ameaça à segurança europeia; que a Europa se deve aproximar da Índia; e que os Estados Unidos são, entre as grandes potências, a que partilha mais valores com os países europeus. Na Europa, começa a ver-se o outro lado do mundo multipolar. Aquele que aconselha a manter e a aprofundar a aliança com os Estados Unidos. Ainda não perceberam, contudo, outra coisa: num mundo multipolar, os Estados Unidos serão muito mais exigentes com os seus aliados. O tempo das alianças sem grande esforço político e militar acabou e não volta.

____

 

João Marques de Almeida, Doutorado em Relações Internacionais