Um 'islamofóbico' confessa-se
por ALBERTO GONÇALVESHoje17 comentários
Em plena praça Tahrir, 200 cidadãos festejaram a queda de Mubarak violando ou, para usar
o eufemismo em voga, agredindo sexualmente a jornalista americana Lara Logan (do 60 Minutes). Fonte
da CBS, a estação de Logan, afirma que esses
pacifistas sedentos de liberdade (e de senhoras, aparentemente) gritavam a palavra Jew! (Judia!) durante o acto, pormenor omitido na vasta maioria
das notícias sobre o episódio.
Compreende-se a omissão.
O optimismo face à evolução
da situação egípcia é tal que qualquer
nota dissonante arrisca-se
a ser mal interpretada. Eu,
por exemplo, estive quase a sugerir aos que
comparam o levantamento no
Cairo com o 25 de Abril ou
com o fim do comunismo no Leste europeu que
inventariassem o número de repórteres violadas, perdão, sexualmente agredidas por multidões
na Lisboa de 1974 ou na Budapeste
de 1989. Porém, depois desisti. A mais vaga reticência à pureza intrínseca dos muçulmanos em êxtase
suscita logo insinuações de
"islamofobia" e "racismo".
Por acaso, não
vejo de que modo a opinião
negativa sobre uma determinada crença religiosa pode indiciar racismo.
Quanto à crença propriamente dita, parece-me confuso acusar-se os cépticos
de aversão ao islão enquanto se garante que a revolta
no Egipto é completamente
secular. Entre parêntesis, convém
notar que a presença de um tarado teocrático à frente da novíssima reforma constitucional garante uma secularização sem mácula.
Fora de parêntesis, confesso: chamo-me Alberto e sou um bocadinho "islamofóbico". Nem sei bem porquê.
Talvez porque, no meu tempo de vida, nenhuma outra religião
inspirou tantas chacinas (já repararam
que há pouquíssimos
atentados reivindicados por católicos, baptistas, judeus, budistas ou hindus?).
Talvez porque nenhuma outra religião
relevante pune os apóstatas com a pena de morte. Talvez porque não
perceba que os países subjugados
à palavra do Profeta consagrem na lei ou no costume o desprezo (e coisas piores) de mulheres, homossexuais, pretos, brancos e fiéis de outras religiões. Talvez porque não se possa
dizer que a sharia trata as minorias abaixo de cão dado que, não satisfeitos
com o enxovalho dos semelhantes,
os muçulmanos também acreditam que os cães
são uma emanação
do demónio e sujeitam os bichos a crueldades
inomináveis. Talvez porque alguns líderes
espirituais do islão foram convictos aliados de Hitler na época do primeiro Holocausto e alguns dos seus sucessores ganham a vida a
exigir o segundo. Talvez porque a presumível maioria de muçulmanos ditos "moderados" é discreta ou omissa na
condenação dos muçulmanos imoderados. Talvez porque, nas raras
oportunidades democráticas
de que dispõem, os muçulmanos ditos
"moderados" teimem
em votar nos partidos menos
moderados (na Argélia ou em
Gaza, por exemplo). Talvez porque inúmeros
muçulmanos se ofendam com
as liberdades que o Ocidente demorou séculos a conquistar, incluindo o subvalorizado mas fundamental direito ao deboche. Talvez
porque uma considerável quantidade de imigrantes muçulmanos no Ocidente rejeite qualquer esboço de integração e, pelo contrário, procure impor as respectivas (e admiráveis) tradições. Talvez porque, no Ocidente, o fervor islâmico colhe a simpatia dos espíritos totalitários à direita (já vi skinheads a desfilar lenços palestinianos e a manifestar-se em prol do Irão)
e, hoje, sobretudo à esquerda.
E é isto.
São minudências assim que determinam a minha fobia, no fundo uma cisma
pouco fundamentada. Um preconceito, quase. Sucede que muitos
dos que, do lado de cá de Bizâncio, acham intolerável tal intolerância, são pródigos na
exibição impune de fobias ao cristianismo
ou ao judaísmo
(o popular "anti-sionismo"). E essa disparidade masoquista, receosa e ecuménica de pesos e medidas constitui, no fundo, o reconhecimento do confronto que nos opõe
ao islão, mesmo o islão secular e cavalheiro da praça Tahrir, e o maior sintoma de que eles estão
a ganhar por desistência. Adivinhem quem está a perder.